Em um mundo onde a tatuagem deixou de ser vista apenas como rebeldia para ocupar espaço na arte, na moda e até na identidade pessoal de milhares de pessoas, o tatuador Ilann Nast construiu em São Luís não apenas uma carreira, mas uma trajetória marcada por coragem, transformação e entrega à arte.
Foi em 2013 que ele chegou à capital maranhense. O plano inicial, no entanto, era completamente diferente. Ilann veio para cursar Engenharia de Petróleo, seguindo um caminho tradicional, acadêmico, aparentemente seguro. Mas a vida tinha outros traços reservados para ele. Entre estudos, descobertas e inquietações, a arte começou a ocupar um espaço cada vez maior em sua rotina até se tornar impossível ignorar o chamado.
“A arte se envolveu na minha vida de uma forma que eu abri mão da faculdade e decidi viver de arte”, relembra.
A decisão exigiu coragem. Trocar uma profissão convencional por um universo cercado de preconceitos não era algo simples. Ainda assim, desde 2014, Ilann passou a atuar profissionalmente como tatuador e encontrou em São Luís o acolhimento necessário para transformar talento em profissão.
A cidade não apenas abriu portas. Abraçou sua história.
Hoje, olhando para trás, ele vê também a transformação da própria tatuagem ao longo dos anos. O que antes era marginalizado, visto como símbolo de rebeldia ou resistência, passou a ocupar outro patamar social, cultural e artístico.
“A novela vem quebrando preconceitos. A tatuagem hoje alcançou um nível muito alto, uma classe muito alta”, afirma.
E talvez seja exatamente isso que mais define o trabalho de Ilann: a compreensão de que tatuagem nunca foi apenas desenho sobre pele. É memória. É símbolo. É pertencimento.
Segundo ele, muita gente ainda enxerga a tatuagem como gasto superficial, mas quem vive esse universo entende que existe valor por trás de cada detalhe. Valor no estudo, nos materiais, na técnica e principalmente na responsabilidade de marcar permanentemente a história de alguém.
“A tatuagem não é necessidade básica. Mas, pra tu ter uma boa tatuagem, tu precisa investir. Não é um cordão que tu compra e tira quando chega em casa. É um acessório que tu carrega o tempo todo.”
Em um mercado cada vez mais profissionalizado, Ilann também destaca o quanto a evolução tecnológica mudou o cenário da tatuagem moderna. Máquinas silenciosas, tintas mais resistentes, materiais de alta qualidade e novos métodos transformaram completamente o resultado final dos trabalhos.
“Hoje as máquinas são silenciosas, em formato de caneta. As tintas têm qualidade muito maior. Antigamente existia aquela questão da tatuagem ficar esverdeada. Hoje o preto fica sólido, bem pretinho.”
Mas ele faz questão de deixar claro que equipamento sozinho não constrói artista.
“O último lançamento não é a máquina que faz o artista. É o artista que faz o trabalho acontecer.”
A fala resume uma filosofia construída com disciplina e aprendizado contínuo. Para Ilann, talento sem estudo não sobrevive no tempo. Ele acredita que muitos ainda romantizam a tatuagem como um dom natural, algo que nasce pronto, quando na verdade exige aperfeiçoamento diário.
“A galera acha que é um dom. Só que a gente precisa estudar. O aprendizado é contínuo, eterno.”
Essa busca constante por evolução é justamente o que impede que um artista fique parado no tempo. Na visão dele, tatuagem também acompanha gerações, tendências, comportamentos e transformações culturais. Quem não evolui artisticamente, acaba preso em referências antigas.
Mais do que estética, Ilann entende a tatuagem como ferramenta emocional. Ao longo da carreira, percebeu que muitas pessoas procuram o estúdio não apenas para desenhar algo bonito, mas para eternizar fases, sentimentos e histórias.
Entre os trabalhos que mais o emocionam, estão as tatuagens de pets.
“Eu gosto muito de tatuar pets”, conta.
E isso vai além do retrato de um animal. Muitas vezes, a tatuagem representa amor, saudade, superação e conexão afetiva. Há também quem procure marcar mudanças de vida, recomeços ou momentos difíceis que ajudaram a moldar quem aquela pessoa se tornou.
“É marcar momentos, fases. Às vezes a pessoa passou por determinada fase, se transformou, mas quer marcar aquele momento pra não esquecer.”
Em cada traço existe uma narrativa silenciosa.
Talvez por isso o estúdio de tatuagem tenha se tornado também um espaço de escuta. Um ambiente onde histórias são compartilhadas enquanto a arte ganha forma na pele.
Ao falar sobre novos tatuadores, Ilann também demonstra preocupação com a profissionalização da área. Ele acredita que hoje existe muito mais acesso ao conhecimento do que antigamente, o que ajuda novos artistas a evoluírem com responsabilidade.
“Hoje existem peles artificiais pra estudo. Não precisa mais usar pessoas como cobaia.”
A observação mostra o quanto o universo da tatuagem amadureceu. O improviso deu lugar à técnica. A informalidade passou a dividir espaço com biossegurança, cursos especializados e formação contínua.
E é exatamente nessa mistura entre sensibilidade artística e profissionalismo que Ilann Nast vem desenhando sua trajetória em São Luís.
Uma história feita de escolhas difíceis, renúncias, aprendizado e paixão pela arte.
Porque, no fim das contas, tatuar nunca foi apenas colocar tinta sobre a pele.
É transformar lembranças em permanência.
É desenhar sentimentos.
É fazer da pele um lugar onde histórias nunca desaparecem.